Réquiem

O Terceiro ato do Réquiem

“Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar. A morte, o destino, tudo, a morte, o destino, tudo, estavam fora de lugar. Eu vivo pra consertar.” – Geraldo Vandré

O som dos violinos se confundia com os ruídos do tráfego, formando uma verdadeira obra pós-moderna, um primor de harmonia. A vida é uma dança, pensou ele, enquanto bailava pelo corredor com uma parceira de valsa invisível, movendo-se majestosa e lentamente. Rodopiava ao som dos violoncelos, em seu som fúnebre e suave. Sentia-se mais que alegre, estava aliviado. Seus ombros não pesavam, seus joelhos não doiam, suas costas não incomodavam mais, e, por algum tempo, sentia-se o mais imponente dos deuses. Deslizava como uma pluma, tanto que, mesmo calçando seus sapatos sociais pretos, parecia estar descalço, tamanha a leveza de seu pisar. A essa altura, abria a porta do banheiro com um solavanco e lavava as mãos. Enquanto a água avermelhada escorria rapidamente pela pia, via-se ao espelho. Seus cabelos desgrenhados encobriam os olhos, mas nao conseguiam impedir o seu brilho ofuscante. Puxou uma toalha de rosto ao lado para secar suas mãos, enquanto encarava um corpo pálido boiando na banheira. Que lindo é o som das flautas! Como um pássaro que caminha no céu despreocupado, elas pontuam uma melodia como diamantes destacam um belo colar. Com um rápido giro pra a esquerda, voltou ao corredor, tomando cuidado para não esbarrar e derrubar os quadros da parede. Seguiu agora dançando um tango bravio. Segurou na cintura vazia da igualmente irreal parceira e esticou seu braço direito, como quem corteja a uma rainha. Passou ao aposento seguinte: uma sala de jantar, ricamente decorada. Com dois lustres cheios de detalhes ao longo de sua extensão, uma mesa de mármore branco figurava no centro do recinto. Ao seu redor, oito cadeiras dispostas simétricamente, e, sobre si, três malas executivas abertas. Duas com dinheiro, e outra com papelotes de algum tipo de droga. Estava começando a suar enquanto roçava sua companheira invisivel perto de si, e passava pelas oito cadeiras, cada uma com um corpo baleado, com a cabeça descansando sobre a mesa. “Olé!” – gritou enquanto esticava-se todo e estendia seus braços ao ar, como um toreiro que massacrou um animal e sente em seus olhos a confissão da renúncia, a admissão de derrota. E, sentindo o cheiro da morte, aniquila seu adversário impiedosamente. Inclinou-se para seu par invisível, e, pelo sorriso que sucedeu, deve ter sido retribuído. Caminha tranquilamente ao porta-casacos, e tira uma jaqueta preta surrada, e veste-a como se vestisse um manto imperial, cheio de pompa e zelo. Prossegue em direção a porta, enquanto desvia dos três corpos ao chão, tomando cuidado pra não pisar em nenhum por acidente. Após uma série de pequenos pulinhos sobre os obstáculos no solo, alcança finalmente a porta de saída. Uma sonata lhe vem a cabeça. Força, poder, sutileza e paixão, tudo isso na linguagem mais universal que a raça humana jamais concebeu. Sorria com prazer, quando lembrou-se de uma última coisa. Voltou até o corpo sentado numa poltrona, próximo à porta. Era um homem de meia idade, com roupa social, e uma gravata fina. Afinal, senadores devem se vestir bem, faz parte de sua prerrogativa. Puxou a gravata em um solavanco, quase derrubando o cadáver alvejado, e sacou um pequeno objeto de sua jaqueta. Usou a gravata pra limpar com rapidez o seu distintivo, de capitão de polícia, já com anos de profissão. Enquanto fazia isso, parou alguns segundo em reflexão, sobre o caminho que o trouxe até ali, sua busca pela vingança e justiça, seu caminho pela redenção. Fechou o punho, encostou-o ao peito, e rumou para a porta, consciente do bom trabalho feito, protegendo as pessoas, a justiça e a sociedade. Não existe corrupção para um homem que perdeu sua família. Só existe a cegueira, a vingança, a dor, e afinal, a liberdade da morte.

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O Primeiro ato do Réquiem

Assim como era o costume naquela época e naquela região, ele deixou as botas sujas na soleira da casa. Mais que um motivo higiênico, era um sinal de respeito à intocabilidade do lar. Sujeira de fora, não entra em casa. Não que de fato não entrasse poeira no casebre, as próprias paredes já faziam sua parte nesse sentido. E ai daquele que violasse os costumes! Mal entrou, fazendo rangir a velha porta de madeira avermelhada, a Senhora já estava a postos com a vassoura em mãos para inspecionar, nem tanto como uma medida de desconfiança com quem quer que estivesse chegando, mas sim uma manobra de segurança para o lar. Cruzaram olhares rapidamente, e continuaram seus caminhos como se sequer tivessem se visto. Ele encaminhou-se para a escada, enquanto ela apressou-se em terminar de varrer a sala, já estava perto da hora do almoço, e as crianças já deviam chegar. Dito e feito, tão logo acabou o serviço, nao teve tempo de suspirar, antes que os dois garotos entrassem como rojões. Descalços, obviamente, os dois correram para os braços do homem que descia da escada com um jornal em mãos. Após um longo abraço, ele sentou numa poltrona velha perto da janela, enquanto os dois garotos subiam em uma disparada frenética.

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Com uma cotovelada, o mais velho executou um lance de gênio. Em um lance digno dos mestres da física, aproveitou a velocidade do irmão mais novo, que vinha pelo lado de fora do corredor já buscando uma ultrapassagem, e em uma fração de segundo, deu-lhe uma cotovelada, imprensando-o contra a parede, saindo pela tangente sem perder a velocidade. Bravíssimo! Parou ao pé da escada ofegante, com os braços esticados pra cima, como um vitorioso ovacionado pelas multidões. “Obrigado, obrigado!” – repetia efusivamente. Em seu metro e noventa de altura, era um típico jovem universitário, com a mesma aparência desleixada e olhar de quem vai dominar o mundo. Seu irmão mais novo, um igualmente jovem rapaz pouco menor, chegava em seguida à sala, quase tropeçando no tapete persa que sua mãe comprara quando se mudaram pra lá. Alguns hábitos nunca mudam. Mas o mais novo teve de reconhecer, a cotovelada foi uma boa idéia, ele nunca tinha pensado nisso. Talvez fosse por isso que o irmão mais velho sempre era o melhor, afinal, ele era o primeiro, e portanto, pensava em tudo primeiro. As vezes lhe doía ser chamado de número dois, ou qualquer apelido irritante que ressaltasse sua inutilidade. Muitas pessoas questionavam como um filho de um governador podia ser tão manso. Seu pai dizia em seus acessos de fúria que o filho mais velho que era um homem de verdade, pois o mais novo sempre se reduzia a seguir opiniões alheias, e isso era um sinal de insignificância. Nunca se importou com esses comentários – de repente até eram verdade. Afastando-se das brumas de pensamentos, foi com seu irmão almoçar, perguntando as horas, e os resultados dos esportes.

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Ao chegar no salão, encontrou muitos desconhecidos, provavelmente cortesia do seu pai. Como parte dos afazeres políticos de um filho de Governador, cumprimentar estranhos, tornou-se a coisa mais normal do mundo. O buffet do almoço estava sendo servido em uma longa mesa, ao longo do jardim. Reconheceu os amigos do seu irmão, o círculo das madames que andavam com sua mãe, o agora velho pai, que conversava com seus amigos influentes, até sua irmã mais nova, recém-adotada, na última campanha eleitoral, estava dando círculos pela casa, arrastando sua babá preocupada a tiracolo. Mas a ausência de uma pessoa lhe chamou a atenção. Sua esposa. Afinal, recém-casados deveriam ficar juntos, em seu dia de casamento. Desde que a conhecera, na faculdade, viu naqueles olhos azuis um reflexo do céu, e um motivo de fé. Viveram muitas aventuras juntos, e entre suas muitas qualidades, destaca-se a imensa habilidade que tem em sumir. Poucas pessoas somem como ela. Procurou algumas damas, aquelas vestidas em cores destacadas e insensatas, que avisaram que ela estava no quarto se trocando, colocando algo mais confortável, já que aquele vestido de casamento pesava demais. Ele seguiu ao seu quarto, desviando dos desconhecidos, e saudando comedidamente os conhecidos. O quarto que fora a ela designado pra aquela data, ficava em uma dependência da grande mansão de seus pais, em um jardim na ala esquerda. Era um apartamento razoável, ladeado por flores e um lago cheio de patos. Ele seguiu apressadamente pela estrada de pedras, chegando rapidamente à casa-anexo. Parou porém na soleira da porta. Viu junto à porta os sapatos de seu irmão, encostados na lateral, atrás de um jarro, pra não chamar atenção. Não precisou abir mais a porta entreaberta para ver o que estava acontecendo lá dentro. E nesse instante amaldiçoou-se, enquanto fechava a porta silenciosamente e retornava às festividades.

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O Segundo Ato do Réquiem

“O pior de morrer é que o dia começa como qualquer outro” – Soldado norte-americano

– Sabe, pra mim a segunda parte de um réquiem é o trecho mais belo, e ao mesmo tempo, mais terrível. É mais belo, pois você sabe que apesar de não ter chegado ainda, o final está próximo. E é o mais terrível, pois você sabe que apesar de não ter chegado ainda, o final está próximo. Entende?

– Vagamente.

Aquela palavra derramou-se sobre sua consciência como um balde cheio de água fria. Levou uma mão aos olhos em uma careta, como quem toma um remédio amargo. Esticou sua outra mão, com uma pistola em punho, e a balançou frenéticamente, de um lado pro outro, negando o simples pensamento.

– Não, não não, tudo errado, tudo errado! Você deveria ser capaz de apreciar a beleza das coisas! Veja só, no réquiem eu vejo o reflexo de nossas vidas inteiras. E a segunda parte, é justamente o presente. É o tempo que não regulamos, e que é nosso dia de hoje. Até que venha o terceiro ato, hoje sempre será um ato de vida, um dia além da morte. É engraçado se pensar, que no coração da canção da morte, se declara o poder da vida. Irônico eu diria.

– Nunca pensei que ia te ver enlouquecer.

– Ponto interessante, o que é a loucura pra você?

– Perguntas desse tipo.

– Você é um sujeito raso, isso sim. É, isso sim é irônico.

– Afinal, o que você quer?

– O que eu quer? Música! Quero dar procedimento à orquestra da vida, que no seu auge mais sublime, declara aos quatro ventos que a morte não existe, mesmo sabendo que isso não passa de uma tolice, mas afinal, que custa sonhar?

– Você definitivamente ficou louco. Eu vou embora daqui, essa conversa não faz mais sentido.

– Eu não considero isso uma conversa, diálogo ou semelhante. Considero uma exposição de motivos. Declamo minhas razões, como meio de justificar minhas ações, e você simplesmente acata.

– E se eu não quiser?

– Mas é essa justamente a grande beleza da coisa! Você não pode! Toda a vida, seja ela humana ou não, pressupõe que em algum canto, não há vida. E também, que um dia, toda vida deve cessar. Portanto, invariavelmente, a canção da vida vai ter fim. É imutável o destino do ser.

– Pense bem, você é um Senador, eu sou um pobre policial, você já teve sua vingança adomercida, está certo? Você teve sucesso, eu não! O que você lucra com isso? Qual a razão? O que mais você quer de mim? Me matar?

– Tirei meu dia para ironias. Não, irmão. Vim para morrer, e te dar uma nova vida.

– Como assim?

Antes que pudesse fechar a boca, vários tiros atingiram sua garganta e maxilar. Caiu na cadeira atrás de si morto, com restos do seu cérebro na parede atrás, mas mesmo assim, com os olhos abertos. O outro baixou a arma, e tranquilamente tirou sua roupa e trocou com a do irmão gêmeo. Afinal, ambos não tinham mudado tanto assim, após tanto tempo, as roupas couberam com perfeição. Ficou feliz com o resultado do seu projeto de anos. A polícia com certeza abafaria todo o escarcéu do caso envolvendo a polêmica morte do Senador. E a ele, cabia a culpa. Talvez o irmão não tivesse sido capaz de entender, que tendo feito o que fez, liberava-o, e trazia para si a maldição, de viver cada dia seguinte, no aguardo, do terceiro ato.

Até lá, dancemos.

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