Rua do Piano, 40

Wagner Artur

Certa vez, um amigo meu me perguntou sobre um bom título. De pronto, sugeri algo que sondasse as intenções por trás do título que ele buscava, algo que transparecesse a razão daquilo, que agora, precisa de um título. Ele então me falou que, quando morava no interior, tinha uma casa, na Rua do Piano, número 40. Nessa casa, viveu até a morte de seu pai. A casa era grande, espaçosa, foi até reformada. Tinha uma mangueira daquelas enormes. De princípio já me interessei por essa história. Pois essa casa se assemelha com a casa que eu vivi os momentos mais felizes da minha infância. A casa de meus tios, próximos daqui, que fica perto da lagoa. A conheci em meus 4 anos de tenra idade, era uma casa em tons de marrom. Ou vinho, todo mundo sempre briga comigo porque eu misturo essas cores. Tinha um cajueiro enorme do lado… tinha um gramado na lateral que era perfeito pra as nossas ocasionais partidas de futebol entre os primos. Onde eu dei meu primeiro carrinho perfeito, daqueles que você dá, sai com a bola, e ainda mereceria os aplausos da torcida, tamanha a técnica. Lá eu aprendi como é bom acordar às 8 da matina pra ouvir os passarinhos cantando nos fios. E não entendia como eles conseguiam fazer isso sem morrer eletrocutados. Dúvidas da infância. Lá eu também aprendi a andar de bicicleta sem rodinha, a nadar… Mais tarde lá também, eu aprendi a conviver e a respeitar a solidão. Mas então, o tempo passa. Quinze anos se passaram, no meu caso, desde a primeira vez que fui lá, naquela casa vermelha. Hoje a casa mudou, foram-se os pássaros, as bicicletas, até a lagoa está mais distante. E o que me massacra por dentro é saber que com eles foram muitas memórias. Irrecuperáveis agora, perdidas no tempo, sem uma centelha que pudesse reanimar o fogo das minhas lembranças, dos fatos, dias, ocasiões que me foram tão valiosos, e me forjaram a personalidade com o passar do tempo. Esse meu amigo me contou que após a morte de seu pai, sua família se mudou para a capital e alugou a casa. Nunca chegaram a de fato, aproveitar a casa. E é quando eu me sinto sozinho, eu invejo esse amigo. Pois quando busco respostas acerca de mim, sobre quem sou, fui e serei, busco meu passado e só encontro migalhas. Fito o horizonte e só vejo sombras. Nesse momento, queria eu, poder encostar minha cabeça na mangueira da Rua do Piano, número 40, adormecer, e sonhar, como se estivesse ouvindo os pássaros novamente, só aguardando a hora de almoçar…
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