Sim, Persianas.

por Wagner Artur

O que eu tava pensando mesmo? Tonto, muito tonto. Olhos abrindo, vejo cortinas. Cortinas verdes, em uma janela pequena. Se bem que parecem persianas. Persianas azuis. Isso mesmo. Verticais inclusive. Na janela. Isso, persianas verticais azuis na janela. Quem abriu as malditas persianas? A parede em que fica a janela é amarela. Curiosamente a janela fica mais ou menos no meio da parede na vertical, e ainda tem mais alguns metros de parede à direita, onde fica uma estante marrom sem graça cheia de livros sem graça de alguma pessoa igualmente sem graça. Provavelmente o mesmo cretino que abriu as persianas. Nas prateleiras se amontoam volumes dos mais diversos tamanhos e cores, tranqueiras empoeiradas e alguns porta-retratos que talvez me deem alguma pista de quem foi a maldita pessoa que abriu as malditas persianas, mas minha vista já não é tão boa assim e a distância é proibitiva. Na frente do armário – pensando bem, nem parece com estante – cor de vinho – branco, por sinal – tem um tapete ovalado meio azul meio laranja em um desenho muito maluco que não sei distinguir se trata do cebolinha e da mônica dançando tango ou de uma versão minimalista d’O Grito de Münch. Meio que contrasta com o cinza do armário e o branco da parede. Ainda assim, de péssimo gosto. Quem foi o cretino que arrumou isso tudo? Maldito bandidão das persianas. Que espécie de jogo nefasto é esse? Do lado direito do tapete tem uma parede, essa sim, igual à anterior – azul bebê – com uma porta bem no meio, como quem quer inutilizar propositalmente a maior parte da parede possível. É daquelas de madeira com entalhes circulares como uma plantação suspeita de pouso alienígena, colaborando com o jeito que o lugar todo tem de gritar nervosamente “os Anos 80 foram o ápice da estética visual!” de um jeito que só quarto frustrados gritam de manhãzinha cedo. Do lado da porta tem um monte de piso que se estende até minha cama – e acredito que embaixo dela também – que por sinal é uma cama de casal espaçosa, do lado de um criado mudo, que além de mudo é manco, que mesmo apoiado por um livro de paulo coelho – ganho, não comprado, que fique bem claro – não pode nem sonhar atingir um padrão de beleza mediano aos criados-mudos e que em seu mundo interior se pudesse estaria gritando alegria por não precisar passar pela humilhação de se reproduzir, até que nem o resto do quarto toleraria essa afronta ao bom-gosto. Culpa do maldito calhorda que abriu as persianas e me soltou no inferno. Olho pro teto e é timidamente branco. Aqui e ali tem umas manchinhas e umas infiltrações, mas nada que afete sua auto-estima como teto ao ponto de fazê-lo se achar um criado-mudo, que tá mais perto do chão que o tapete. Esse provavelmente lançaria moda. Tem alguém se mexendo do meu lado. acotovelo e pergunto com autoridade e voz de oficial rodoviário bêbado:
– Quem abriu as malditas persianas?
– Que persianas? Isso são cortinas…
– Ah…
Droga de cortinas, vou voltar a dormir. Porque diabos não comprei persianas?

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