Uma história de duas cidades

Wagner Artur

Existia entre duas cidades uma grande zona de conurbação, que tornava impossível discernir o quê era de quem e onde era qual no meio da balbúrdia metropolitana. Para os habitantes das duas cidades não fazia muita diferença, o bairro era longe de qualquer jeito, não importa qual fosse a cidade verdadeiramente dona da região. Sucessivas administrações de ambos lados já tentaram diversas vezes resolver o problema para fins eleitorais, mas também jamais lograram êxito. O correio diligentemente entregava as cartas da mesma forma, não importando qual nome você escrevia, inclusive no nome das ruas, que variava segundo sua interpretação urbana. Se era uma cidade, o nome era daquele tio-avô do prefeito, se fosse na outra era o velho médico do senador já finado. O que importa é que pra todos os efeitos a amálgama social já era tão consolidada que se tornara imperceptível. O trânsito entre as cidades se dava, literalmente, no susto, já que um conjunto de placas com cores berrantes fora colocado em pontos estratégicos – ou seja, aleatóriamente – em locais passíveis de interpretação como limite municipal. E era algo realmente assombroso, do lado de um casarão cinquentenário colocavam um outdoor verde-atômico escrito “Bem-vindo!” em letras garrafais, com direito a três pontos de exclamação, ou uma placa igualmente grande, só que de cor laranja-plasma com os dizeres “Achegue-se!”, parte de uma campanha do Prefeito para incentivar uma imagem mais carinhosa da cidade para o cidadão comum. Esse, por sua vez, só fazia achar graça, colocando esse tema frequentemente na pauta dos debates na boemia, junto com os relatos de causos e polêmicas no futebol. Tudo parecia estar resolvido, ao menos aparentemente. A verdade era que existia sim alguém inconformado com a situação e disposto a resolver a questão, mesmo que a contragosto – e mais provavelmente, total desinformação – dos seus habitantes. As cidades marcaram um encontro e resolveram: vamos resolver isso de uma vez por toda.

Vocês devem querer saber como assim, que cidades são essas que discutem e marcam reuniões. É verdade, amigo leitor, pode parecer estranho mas a maioria das cidades tem sim uma consciência e até fala, o problema é alguém ter tempo pra ouvir, sabe como é. Essa história eu te conto em primeira mão, ouvi por aí, e você sabe que por aí se ouve de tudo.

Voltando. marcaram o encontro nas cercanias, mas numa zona neutra, na casa da vizinha. Chegaram na hora e mal deram bom-dia, foram direto ao ponto:

– Bom dia, dona.
– Bom dia, Senhor. Como tem passado?
– Aperriado com essa história toda, você sabe.
– Oras, e você lá tem direito de se incomodar? Tão querendo pegar um pedação meu e te dar, ah, isso não se faz, isso não pode ficar assim!
– Ó, mas não seja por isso, você sabe que não é da minha vontade. É esse povo que insiste em querer ficar junto, não vem descontar em mim. Eles podiam muito bem vir pra terra da prima, mas não, querem ficar lá em nós, não tenho nada a ver com isso.
– Você sempre disse isso, incrível. Devia ter vergonha, você pensa que eu não sei?
– Uai, e sabe do quê?
– Aquela chuva que teve em 1967, ah sim, eu lembro demais. Choveu um mundo e num instante se formou uma lagoa, coisa de mágica. De repente pra circular entre dois bairros meus eu tinha de entrar na sua área. Fui entrando, quando menos percebi o povo já se sentia em casa, já passava direto. Dito e feito, em três tempos já diziam que o bairro era seu.
– Mais uma vez, não tenho culpa. Choveu o que tinha de chover, você sabe como as coisas são. Sem falar que isso é coisa antiga, ninguém nem lembra mais.
– Justamente, ninguém lembrava que as ruas tinham a minha marca, não esses seus nomes feios e sem-graça. Esse negócio só me trouxe tristeza, as pessoas tão esquecendo os nomes das ruas!
– Ih, deixa de drama. Não fale como se você não tivesse ganhado nada com isso. Você bem que usufruiu dos turistas que vieram pela estrada federal, vai. A quantidade de indústria que se instalou em você só porque você tá coladinha em mim? Vixe, não dá nem pra contar. Um monte.
– Nem é tanto assim, viu. Façamos o seguinte. Estabeleçamos um acordo, você não mexe mais na minha área, vai esticar as pernas pro lado de lá!
– Como assim, lado de lá???
– De lá! (apontando)
– Mas lá é o mar!
– Diz que fizeram assim na Holanda e deu muito certo.
– Ah não senhora não dá certo não, sinto muito. Você que aprenda a conviver comigo que eu nunca te fiz mal. Te abasteço, ajudo na sua segurança, te mantenho sempre cheia de vida. Que mais que você quer, danada?
– Ah, é que a gente tá junto já a tanto tempo… você sabe, chega um ponto na vida de uma cidade que ela precisa crescer, se desenvolver, ter espaço. Temos certas necessidades…
– O shopping center novo é seu e estamos combinados.
– Feito.

Ninguém entendeu direito como aquilo aconteceu, mas parece que o bendito Shopping Center era a peça que faltava naquele imenso labirinto habitacional. Depois que alargaram duas ruas e encaixaram os acessos do Shopping, ficou tudo divididinho, com o mesmo acesso e fluxo pros dois lados. Foi questão de tempo até se criar a conexão popular entre o “lado de lá” e o “lado de cá”. “Solução mágica!”, dizia o velho do bar do veterano, com sua sabedoria de matusalém. Mas a paz durou pouco. O Shopping acabou caindo num verdadeiro escândalo da engenharia, que acabou revelando que as fundações não tinham sido feitas de acordo com o solo daquela cidade, mas da cidade vizinha. Logo, o plano foi um desastre, e o projeto foi à falência, deixando aquele buraco imenso entre as duas cidades. Mas eu acho que isso não dura muito, sabe. À noite, se você parar pra sentir o cheiro do mar que o vento carrega, tenho certeza que sente um pouco de tristeza de amor rejeitado. Mas isso passa, e o amor volta a ser um só, indistinguível entre eu e você.

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