Visitas noturnas

Wagner Artur

Ao longo de toda a vida, é natural do homem eventualmente se encontrar ponderando sobre o começo e o fim. O nascimento e a morte, os limiares da vida em si. O mistério é impenetrável, e suscita interesse ou medo, às vezes coragem. Muito especula-se sobre a pós-vida, a eternidade e seus supostos espectros. Fantasmas. Eu tenho um fantasma. Na verdade tenho vários, mas esse me é mais caro, na medida do possível. Ele, ou ela, mora na escada do meu prédio, no lance imediatamente acima do terceiro andar. Talvez seria mais amplo dizer que reside entre o primeiro e o terceiro andar do prédio em que moro, mas me arrisco: mora nos primeiros degraus do meio, no escuro. De dia nem tanto, mas à noite, especialmente nas madrugadas, se passo perto, ouço soluço e lágrimas. Todas as noites. Se vou sair, ou estou chegando de alguma ocupação tardia, não consigo não olhar pra as escadas escuras e não ver aquilo que o
escuro tenta me proteger de ver. Tenho outros também, se quiser eu mostro pra você. Ali descendo a rua principal, perto do museu, fica outro. Ele fica entre o centro de velório e se estende até a parada de ônibus. Naquele trecho curto, menos de um quarteirão, de calçada baixa e eventualmente submersa por nossas chuvas tropicais-torrenciais aliadas com um sistema de drenagem pífio, existe um prédio pequeno, logo depois do museu. É alguma coisa de médicos. Na frente desse prédio existe uma sombra inexplicável, e por isso eu opto por localizar esse fantasma lá. Naquela sombra. Quando passo por lá eu ouço uma voz no meu ouvido, sinto olhos ao meu redor, sinto cheiro de violência. E ouço a voz no meu ouvido chorando, não só no meu ouvido, na minha cabeça, na minha razão.

No duro, tenho muitos fantasmas. Sempre nutrive a idéia que imprimimos nossa existência no cenário da vida, e deixamos nossos rastros. Não consigo olhar pra uma rua sem imaginar rastros de pessoas, automóveis, animais de estimação. Emoções e experiências são despejadas nos trajetos mais comuns.

Sim, tem aquele outro também. Que mora no salão de festas. O salão daqui do prédio, pra quem não conhece, já foi descrito como uma ode aos anos noventa. Tem janelas totalmente anti-praticidade, móveis antigos, cadeiras de boteco da década de 80/90. Sempre que eu entro no aposento e ligo as luzes ouço sussurro que me soam como gritos, sinto cheiro de lembranças que me soam como sangue. Mas eu sei que não é nada disso. Sei que é somente um fantasma. Se olho da minha janela, e não preciso ir mais longe que isso, já vejo uma dúzia de fantasmas, que me aguardam, pacientemente, em suas esquinas, ruas, cruzamentos, árvores, pedras, casas, vidas. Cada centímetro é uma memória que foi eternizada em um instante. Confesso que já recorri a momentos nostálgicos e aos fantasmas dos amigos que partiram, que foram gentis e me acolheram no momento, mesmo que se limitassem a responder com um silêncio paciente meus pedidos. Mas às vezes eu penso que talvez devesse voltar a cada fantasma, e ouvir o que ele quer dizer, para que possa enfim ir embora, descansar em paz.

Mas receio que então tomaria o lugar dela, sentaria na escada que julgo estar sendo apenas guardada pra mim, e me contentaria com as visitas noturnas de mais alguém que, como eu, tenha nas lembranças mais que amizade; culpa e justiça. Enfim, liberdade.

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