10 videos that rock my world

1 – Pale Blue Dot – Carl Sagan

2 – Singin’ in the Rain – Gene Kelly

3 – Mad World – Gary Jules

4 – Eyes on Me – Faye Wong

5 – Together – Bob Sinclair

6 – Dodos, Maltese Falcons, and the Art of Obsession – Adam Savage

7 – Sete Dias – Época

8 – Soldier Dream – Hironobu Kageyama

9 – Religion is Bullshit – George Carlin

10 – Think Different – Apple

Tropeços

Hoje achei na Leitura Megastore do Shopping Cidade vários livros em espanhol a um preço excelente, R$ 7,00. Como acho que preciso praticar minha leitura em espanhol, aproveitei pra comprar um deles. Entre vários autores desconhecidos e alguns conhecidos que não me interessava ler – como Poe, por exemplo, que posso muito bem ler em inglês logo – escolhi um de Gustavo Adolfo Becquer chamado Rimas y Leyendas. O nome suscitava alguma familiaridade, mas mais no sentido de “já vi esse nome” do que “já li algo desse autor”.  Comprei o bendito, e chegando em casa me ponho a folhear descompromissadamente, ver qual é a do cara. Eis que bato os olhos na rima X que, por uma incrível coincidência cósmica, é um dos meus poemas favoritos. O conheci antes por aí, tropeçando na vida.

Los invisibles átomos del aire

En derredor palpitn y se inflaman;

El cielo se deshace en rayos de oro;

La tierra se estremece alborozada.

Oigo flotando en olas de armonia

Rumor de besos y batir de alas;

Mis párpados se cierran… Que sucede?

- És el amor que pasa!

Tropecei lá, tropeço cá. Coisas da vida, casuística e caprichosa.

Gazing the abyss

Nazis são, para a sociedade ocidental, a epítome do mal, o apogeu do nefasto, e tudo aquilo que odiamos e abominamos. Eles são o demónio que nossos avós viram nos olhos, que marcou nosso mundo com seu fogo e empesteou a história com seu cheiro de enxofre. E a sacada genial de Tarantino foi perceber que, contra o demônio, nós estamos alegremente dispostos a usar todas as armas do inferno.

Porque além de já fazer mal tudo o que eu faço, resolvi atacar de crítico cinematográfico. Texto na íntegra no blog Tecnologia e Cinema.

Momentos

Kudos to Pequena Infante ;)

Proclamação

O mundo é uma proclamação heróica ideologicamente voltada para o infinito. Tudo é construído e insinuado simbolizando uma eterna repetição, uma vida que prosseguirá por dias, anos e incontáveis invernos, sem objeção. Contudo a vida não é reta, mas curvilínea e acidentada. Não flui em ritmo constante, alternando momentos vagarosos e ensimesmados e rompantes apressados e esbaforidos. Dos mistérios mais intrigantes na existência humana, poucos são mais herméticos que a arte de trafegar entre essas duas instâncias do espaço-tempo: o presente estático e o futuro intangível. A vida que corre e a vida que morre, pacata, de inanição. Saber alternar entre as duas velocidades é um privilégio para pouquíssimos, por diversos fatores, e essa é uma história que ilustra alguns desses elementos, se me concederes a graça da sua atenção por alguns minutos. Continue lendo ‘Proclamação’

Réquiem [em três movimentos]

O Terceiro ato do Réquiem

“Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar. A morte, o destino, tudo, a morte, o destino, tudo, estavam fora de lugar. Eu vivo pra consertar.” – Geraldo Vandré

O som dos violinos se confundia com os ruídos do tráfego, formando uma verdadeira obra pós-moderna, um primor de harmonia. A vida é uma dança, pensou ele, enquanto bailava pelo corredor com uma parceira de valsa invisível, movendo-se majestosa e lentamente. Rodopiava ao som dos violoncelos, em seu som fúnebre e suave. Sentia-se mais que alegre, estava aliviado. Seus ombros não pesavam, seus joelhos não doiam, suas costas não incomodavam mais, e, por algum tempo, sentia-se o mais imponente dos deuses. Deslizava como uma pluma, tanto que, mesmo calçando seus sapatos sociais pretos, parecia estar descalço, tamanha a leveza de seu pisar. A essa altura, abria a porta do banheiro com um solavanco e lavava as mãos. Enquanto a água avermelhada escorria rapidamente pela pia, via-se ao espelho. Seus cabelos desgrenhados encobriam os olhos, mas nao conseguiam impedir o seu brilho ofuscante. Puxou uma toalha de rosto ao lado para secar suas mãos, enquanto encarava um corpo pálido boiando na banheira. Que lindo é o som das flautas! Como um pássaro que caminha no céu despreocupado, elas pontuam uma melodia como diamantes destacam um belo colar. Com um rápido giro pra a esquerda, voltou ao corredor, tomando cuidado para não esbarrar e derrubar os quadros da parede. Seguiu agora dançando um tango bravio. Segurou na cintura vazia da igualmente irreal parceira e esticou seu braço direito, como quem corteja a uma rainha. Passou ao aposento seguinte: uma sala de jantar, ricamente decorada. Com dois lustres cheios de detalhes ao longo de sua extensão, uma mesa de mármore branco figurava no centro do recinto. Ao seu redor, oito cadeiras dispostas simétricamente, e, sobre si, três malas executivas abertas. Duas com dinheiro, e outra com papelotes de algum tipo de droga. Estava começando a suar enquanto roçava sua companheira invisivel perto de si, e passava pelas oito cadeiras, cada uma com um corpo baleado, com a cabeça descansando sobre a mesa. “Olé!” – gritou enquanto esticava-se todo e estendia seus braços ao ar, como um toreiro que massacrou um animal e sente em seus olhos a confissão da renúncia, a admissão de derrota. E, sentindo o cheiro da morte, aniquila seu adversário impiedosamente. Inclinou-se para seu par invisível, e, pelo sorriso que sucedeu, deve ter sido retribuído. Caminha tranquilamente ao porta-casacos, e tira uma jaqueta preta surrada, e veste-a como se vestisse um manto imperial, cheio de pompa e zelo. Prossegue em direção a porta, enquanto desvia dos três corpos ao chão, tomando cuidado pra não pisar em nenhum por acidente. Após uma série de pequenos pulinhos sobre os obstáculos no solo, alcança finalmente a porta de saída. Uma sonata lhe vem a cabeça. Força, poder, sutileza e paixão, tudo isso na linguagem mais universal que a raça humana jamais concebeu. Sorria com prazer, quando lembrou-se de uma última coisa. Voltou até o corpo sentado numa poltrona, próximo à porta. Era um homem de meia idade, com roupa social, e uma gravata fina. Afinal, senadores devem se vestir bem, faz parte de sua prerrogativa. Puxou a gravata em um solavanco, quase derrubando o cadáver alvejado, e sacou um pequeno objeto de sua jaqueta. Usou a gravata pra limpar com rapidez o seu distintivo, de capitão de polícia, já com anos de profissão. Enquanto fazia isso, parou alguns segundo em reflexão, sobre o caminho que o trouxe até ali, sua busca pela vingança e justiça, seu caminho pela redenção. Fechou o punho, encostou-o ao peito, e rumou para a porta, consciente do bom trabalho feito, protegendo as pessoas, a justiça e a sociedade. Não existe corrupção para um homem que perdeu sua família. Só existe a cegueira, a vingança, a dor, e afinal, a liberdade da morte.

xxx

O Primeiro ato do Réquiem

Assim como era o costume naquela época e naquela região, ele deixou as botas sujas na soleira da casa. Mais que um motivo higiênico, era um sinal de respeito à intocabilidade do lar. Sujeira de fora, não entra em casa. Não que de fato não entrasse poeira no casebre, as próprias paredes já faziam sua parte nesse sentido. E ai daquele que violasse os costumes! Mal entrou, fazendo rangir a velha porta de madeira avermelhada, a Senhora já estava a postos com a vassoura em mãos para inspecionar, nem tanto como uma medida de desconfiança com quem quer que estivesse chegando, mas sim uma manobra de segurança para o lar. Cruzaram olhares rapidamente, e continuaram seus caminhos como se sequer tivessem se visto. Ele encaminhou-se para a escada, enquanto ela apressou-se em terminar de varrer a sala, já estava perto da hora do almoço, e as crianças já deviam chegar. Dito e feito, tão logo acabou o serviço, nao teve tempo de suspirar, antes que os dois garotos entrassem como rojões. Descalços, obviamente, os dois correram para os braços do homem que descia da escada com um jornal em mãos. Após um longo abraço, ele sentou numa poltrona velha perto da janela, enquanto os dois garotos subiam em uma disparada frenética.

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Com uma cotovelada, o mais velho executou um lance de gênio. Em um lance digno dos mestres da física, aproveitou a velocidade do irmão mais novo, que vinha pelo lado de fora do corredor já buscando uma ultrapassagem, e em uma fração de segundo, deu-lhe uma cotovelada, imprensando-o contra a parede, saindo pela tangente sem perder a velocidade. Bravíssimo! Parou ao pé da escada ofegante, com os braços esticados pra cima, como um vitorioso ovacionado pelas multidões. “Obrigado, obrigado!” – repetia efusivamente. Em seu metro e noventa de altura, era um típico jovem universitário, com a mesma aparência desleixada e olhar de quem vai dominar o mundo. Seu irmão mais novo, um igualmente jovem rapaz pouco menor, chegava em seguida à sala, quase tropeçando no tapete persa que sua mãe comprara quando se mudaram pra lá. Alguns hábitos nunca mudam. Mas o mais novo teve de reconhecer, a cotovelada foi uma boa idéia, ele nunca tinha pensado nisso. Talvez fosse por isso que o irmão mais velho sempre era o melhor, afinal, ele era o primeiro, e portanto, pensava em tudo primeiro. As vezes lhe doía ser chamado de número dois, ou qualquer apelido irritante que ressaltasse sua inutilidade. Muitas pessoas questionavam como um filho de um governador podia ser tão manso. Seu pai dizia em seus acessos de fúria que o filho mais velho que era um homem de verdade, pois o mais novo sempre se reduzia a seguir opiniões alheias, e isso era um sinal de insignificância. Nunca se importou com esses comentários – de repente até eram verdade. Afastando-se das brumas de pensamentos, foi com seu irmão almoçar, perguntando as horas, e os resultados dos esportes.

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Ao chegar no salão, encontrou muitos desconhecidos, provavelmente cortesia do seu pai. Como parte dos afazeres políticos de um filho de Governador, cumprimentar estranhos, tornou-se a coisa mais normal do mundo. O buffet do almoço estava sendo servido em uma longa mesa, ao longo do jardim. Reconheceu os amigos do seu irmão, o círculo das madames que andavam com sua mãe, o agora velho pai, que conversava com seus amigos influentes, até sua irmã mais nova, recém-adotada, na última campanha eleitoral, estava dando círculos pela casa, arrastando sua babá preocupada a tiracolo. Mas a ausência de uma pessoa lhe chamou a atenção. Sua esposa. Afinal, recém-casados deveriam ficar juntos, em seu dia de casamento. Desde que a conhecera, na faculdade, viu naqueles olhos azuis um reflexo do céu, e um motivo de fé. Viveram muitas aventuras juntos, e entre suas muitas qualidades, destaca-se a imensa habilidade que tem em sumir. Poucas pessoas somem como ela. Procurou algumas damas, aquelas vestidas em cores destacadas e insensatas, que avisaram que ela estava no quarto se trocando, colocando algo mais confortável, já que aquele vestido de casamento pesava demais. Ele seguiu ao seu quarto, desviando dos desconhecidos, e saudando comedidamente os conhecidos. O quarto que fora a ela designado pra aquela data, ficava em uma dependência da grande mansão de seus pais, em um jardim na ala esquerda. Era um apartamento razoável, ladeado por flores e um lago cheio de patos. Ele seguiu apressadamente pela estrada de pedras, chegando rapidamente à casa-anexo. Parou porém na soleira da porta. Viu junto à porta os sapatos de seu irmão, encostados na lateral, atrás de um jarro, pra não chamar atenção. Não precisou abir mais a porta entreaberta para ver o que estava acontecendo lá dentro. E nesse instante amaldiçoou-se, enquanto fechava a porta silenciosamente e retornava às festividades.

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O Segundo Ato do Réquiem

“O pior de morrer é que o dia começa como qualquer outro” – Soldado norte-americano

- Sabe, pra mim a segunda parte de um réquiem é o trecho mais belo, e ao mesmo tempo, mais terrível. É mais belo, pois você sabe que apesar de não ter chegado ainda, o final está próximo. E é o mais terrível, pois você sabe que apesar de não ter chegado ainda, o final está próximo. Entende?

- Vagamente.

Aquela palavra derramou-se sobre sua consciência como um balde cheio de água fria. Levou uma mão aos olhos em uma careta, como quem toma um remédio amargo. Esticou sua outra mão, com uma pistola em punho, e a balançou frenéticamente, de um lado pro outro, negando o simples pensamento.

- Não, não não, tudo errado, tudo errado! Você deveria ser capaz de apreciar a beleza das coisas! Veja só, no réquiem eu vejo o reflexo de nossas vidas inteiras. E a segunda parte, é justamente o presente. É o tempo que não regulamos, e que é nosso dia de hoje. Até que venha o terceiro ato, hoje sempre será um ato de vida, um dia além da morte. É engraçado se pensar, que no coração da canção da morte, se declara o poder da vida. Irônico eu diria.

- Nunca pensei que ia te ver enlouquecer.

- Ponto interessante, o que é a loucura pra você?

- Perguntas desse tipo.

- Você é um sujeito raso, isso sim. É, isso sim é irônico.

- Afinal, o que você quer?

- O que eu quer? Música! Quero dar procedimento à orquestra da vida, que no seu auge mais sublime, declara aos quatro ventos que a morte não existe, mesmo sabendo que isso não passa de uma tolice, mas afinal, que custa sonhar?

- Você definitivamente ficou louco. Eu vou embora daqui, essa conversa não faz mais sentido.

- Eu não considero isso uma conversa, diálogo ou semelhante. Considero uma exposição de motivos. Declamo minhas razões, como meio de justificar minhas ações, e você simplesmente acata.

- E se eu não quiser?

- Mas é essa justamente a grande beleza da coisa! Você não pode! Toda a vida, seja ela humana ou não, pressupõe que em algum canto, não há vida. E também, que um dia, toda vida deve cessar. Portanto, invariavelmente, a canção da vida vai ter fim. É imutável o destino do ser.

- Pense bem, você é um Senador, eu sou um pobre policial, você já teve sua vingança adomercida, está certo? Você teve sucesso, eu não! O que você lucra com isso? Qual a razão? O que mais você quer de mim? Me matar?

- Tirei meu dia para ironias. Não, irmão. Vim para morrer, e te dar uma nova vida.

- Como assim?

Antes que pudesse fechar a boca, vários tiros atingiram sua garganta e maxilar. Caiu na cadeira atrás de si morto, com restos do seu cérebro na parede atrás, mas mesmo assim, com os olhos abertos. O outro baixou a arma, e tranquilamente tirou sua roupa e trocou com a do irmão gêmeo. Afinal, ambos não tinham mudado tanto assim, após tanto tempo, as roupas couberam com perfeição. Ficou feliz com o resultado do seu projeto de anos. A polícia com certeza abafaria todo o escarcéu do caso envolvendo a polêmica morte do Senador. E a ele, cabia a culpa. Talvez o irmão não tivesse sido capaz de entender, que tendo feito o que fez, liberava-o, e trazia para si a maldição, de viver cada dia seguinte, no aguardo, do terceiro ato.

Até lá, dancemos.

Terra

O gosto de areia na minha boca era familiar. A sensação barrenta de argila pontilhada com minúsculos cristais rochosos passeando pelo céu da minha boca com aquele odor marrom e ocre, empedernido com uma sensação imaterial de idade avançada. Na minha boca não era só terra, só areia ou pedras, eu saboreava lentamente o sabor de Gaia, da Tartaruga Divina que nos conduz ao éter do infinito sideral. Degustava o íntimo de cada deusa da fertilidade que já foi cultuada sob este céu, encontrava na pedra, na rocha, o substrato de tudo, a matéria que compõe tudo, nosso carbono sacrossanto que nos molda e forma nosso receptáculo orgânico, assim como as misteriosas forças insondáveis que fizeram, há milênios, desse carbono outrora tosco e opaco, reluzir vida. Ná terra temos todas as respostas, está tudo lá, pacientemente depositado para num futuro distante ser devidamente desvelado, como agora, como eu, como nós. Cada célula do meu corpo urge voltar a sê-la, desespera-se – e no curso despedaça-se, atira-se, sendo finalmente carregada pelos lençóis invisíveis – mas certamente caudalosos – da gravidade ao que anseiam, ao solo. Somos todos terra, a cada passo que damos nos desmanchamos e nos espalhamos pela terra, em ser terra. Antigamente se dizia que cabia, a nós humanos, espalhar e frutificar sobre a terra. Bobagem, nós somos a terra que anda, fala e vê, que se enxerga em cada lugar, que julga ter uma identidade separada desta terra. É isso que nos une, somos a mesma poeira arrogante e desatinada que não percebe que, mesmo voando por quilômetros em rajadas de vento, ainda cairemos no solo, de onde pertencemos. Do pó viemos, e a ele voltamos, um grão por dia. Hoje parto para uma longa viagem, longe da minha terra. Conhecerei outras, me apaixonarei, terei casos frívolos, mas estou condenado a jamais abandonar a minha terra mãe, que me criou, que me trouxe ao mundo. É esta a minha deusa, a quem devo cânticos e rituais pagãos à prosperidade e culto à sua impassividade. Antes de partir, um gesto sincero, mesmo que pouco comum: trago um punhado de terra comigo, em uma vasilha, para me lembrar do que sou feito, quem sou, e de onde vim. São todas respostas para a mesma pergunta, o que me define como pessoa. E a resposta está aqui, nos lençóis freáticos, nas colinas, nos acidentes desta terra. Neste punhado me vejo no passado e no presente. Faço como meu pai: mastigo um pequeno punhado, esfrego meus molares, sinto o seu gosto, e, após, cuspo. Selo meu destino. Juro à minha mãe terra que, enquanto tiver vida, não a abandonarei. Ela persistirá em minha lembrança, e terá o direito de atormentar meus dias, caso seja um filho mau. Me lançará, como uma ninfa, um encanto pueril, destinado a distorcer tudo ao meu redor, fazendo que cada curva e cada verde lembre a terra de onde vim. Envenenará minha vida, me condenará à incompletude, me afogará na saudade até que eu me perca por completo, e, deste mundo, só me sobre as lembranças, dela, da minha terra, minha mãe, que me ensinou a andar, e que preencherá meus pulmões em meus instantes finais.

Sombra

Quando o sol se descortinou, o inferno se revelou vertical. A sombra sob a copa de uma árvore estava a alguns centímetros, ou mesmo milímetros, da luminosidade incandescente que alimentava a grama, tostava a areia e ressecava tudo e qualquer criatura composta de carbono e água que se atrevesse a aparecer. O sol era o Hades, e a sombra, o Elísio. Sua posição horizontal discernia seu estado de espírito, sua condição física e mesmo seus sonhos. Na sombra, uma rede, praia, água de coco. No sol, a sombra. Mas o inferno estava lá, como se empilhasse camadas e camadas de fogo e enxofre sobre as costas de quem desafiasse o diabo. Invisível, como sempre em sua eterna desídia, o demônio pesava sobre os ombros humanos seus cascos podres – ou garras retorcidas, como preferir – e sibilava com sua língua bífida mentiras deslavadas – ou verdades inconvenientes, talvez – nas mentes dos fracos. Entre hordas iluminadas e transeuntes atordoados estava um jovem, no sentido mais intrínseco da palavra. Recém-adulto, pós-adolescente, naquele intermezzo que separa a experiência da curiosidade. Calças jeans, camiseta branca, cabelos desgrenhados e um heróico par de óculos escuros. Todo o seu corpo transpirava e ardia na brasa causticante, menos os olhos, protegidos e serenos, em espera. O rapaz aguardava no sol. Ao seu lado havia duas cadeiras protegidas da ira solar. Uma estava ocupada por uma senhora idosa, quase centenária, e a outra estava temporariamente vazia. Seria ocupada em breve, assim que o senhor, aparentemente marido da senhora idosa, se desse conta da sua idade e desistisse de tentar ficar em pé, torturando seu corpo desgastado. O rapaz, que estava sentado, se ergueu como cortesia, antes mesmo de ser requisitado, sob negativas veementes do casal: isso não seria necessário. Viver não é necessário, nem por isso deixamos de achar certo viver. Tomar sol é bom mesmo, faz bem à saúde. Partes do nosso corpo se ativam quando nos colocamos sob o sol, partes que nós sequer lembramos. Escondidos em cavernas, satisfeitos em nossas comodidades de home delivery, é bom notar, às vezes, que parte da nossa verve está presa ao sol. Ao inferno, ao diabo, que nos maltrata mas nos dá fôlego e nos faz germinar. Assim nos completamos. Não faltava mais muito tempo pro ônibus chegar. Era naquela época em que já tínhamos aposentado relógios, de pulso ou de bolso, e usávamos celulares como relógio, guardados nos bolsos, para saber o tamanho do nosso atraso ou da nossa ansiedade. O garoto já tinha olhado o relógio-celular trocentas vezes em um nervosismo visível. O mostrador digital não possuia mais os ponteiros e o tique taque, mas trazia uma batida implícita nos segundos, acentuada pelo calor e o rigor imposto pelo sol. Tique, taque, tique, taque, gotas de suor e o mormaço claustrofóbico do sol inclemente eram enervantes. Após duas dúzias de consultas ao relógio, surgiu a dúvida: seria aquele mesmo o horário acertado? Dentro do bolso traseiro da calça estava uma carta amarrotada pelo uso excessivo, que continha um horário circulado em uma caneta vermelha. Aquela era a hora mesmo, aquele era o dia. O dia do encontro, afinal. A carta era breve, mas bem escrita e, acima de tudo, visceral. Desabafos, inseguranças, medos e desejos, todos agrupados formando uma imagem clara e lúcida de simpatia, alguém com os mesmos dissabores e esperanças, do outro lado da distância geográfica, numa sinergia de espíritos. Tudo estava certo com linhas certas, assim como a hora era perfeita, no meio da tarde lacinante de verão, com o sol ameaçando devorar tudo e todos que demonstrassem o mínimo de fraqueza. Naquele dia ele mostrou sua força e se apresentou diante da possibilidade do futuro. Mostrou a verdadeira vitória, entrentou não só o calor, o sol, mas a incerteza, a utopia, a ilusão, a covardia, a paranóia, a solidão. Todos em um só movimento, corajoso. Em uma de suas mãos, uma rosa, já ressecada, balançava nervosamente. As gotas de água borrifadas pelo florista já não passavam de lembrança distante do conforto. O casal de idosos sorriu ao ver a flor. “Bonito, não se vê mais dessas coisas hoje em dia, os jovens não tem mais amor, só volúpia”. O comentário lhe escapou, pois naquele instante um ônibus infinitamente imaginado apareceu em uma trajetória infinitamente prevista, da forma que sua criatividade já tinha antevisto e ensaiado centenas de vezes, por todos aqueles minutos infinitos. Ele se arrumou timidamente, e abriu um sorriso imenso, do tamanho do universo inteiro, repleto de satisfação. Manteve o sorriso enquanto viu cada passageiro do ônibus descer, um por um, menos aquela que ele desejava mais. Ao final da lenta procissão, perguntou ao motorista se não havia mais passageiros, recebendo resposta negativa. Virou-se, entregou a rosa ao casal sentado ao seu lado, e partiu nos braços do sol infernal, com olhos protegidos na escuridão, longe da luz maligna e zombeteira. Naquela tarde, as sombras não foram capazes de esconder o que estava à vista de todos, até as estrelas, sobre o homem só impera o peso ingrato, indócil, do mundo que poderia – e talvez até deveria – ser diferente.

Todas as divas

Girl in a Graingfield, by Alphonse Mucha

Girl in a Graingfield, by Alphonse Mucha

Era uma noite como outra qualquer, uma noite boa para milagres.

Primeiro havia os olhos, enérgicos mas tristes, completos mas despedaçados. Encantados. Ao primeiro sinal dos olhos havia o resto do mundo, construído lentamente para encaixar ao seu redor, tudo a seu devido tempo. Não se engane, para qualquer garoto, toda a existência, em qualquer dimensão física ou mesmo espiritual se constrói em torno da dama, da diva. É basicamente isso, e é nessa ordem. Mas não é qualquer. Talvez haja mulheres que não sejam garotas, ou mesmo garotas que não sejam as damas, as divas, o objeto de nossa admiração. Essas são as irmãs, primas, amigas, ou o que for. São seres humanos como nós, logo, não são divinas. São belas e essenciais, mas não deslocam a matéria ao seu redor. A luz não se curva só pelo prazer de reluzir pelos seus cabelos. São como nós, escravos num mundo inclemente com o padrão (justamente por dar a ele o mesmo tratamento igualitário, desinteressado e desinteressante, massacrante de qualquer individualidade). Mas as damas, as divas, são muito mais.

É a nossa sina, dos garotos, de sermos pequenos, menores, diante delas. Tentar protegê-las, desengonçados, como se fôssemos sequer capazes de proteger a nós mesmos. Passar-lhes um braço sobre os ombros num dia frio para aquecer-lhes, para que sintam nosso pulso e energia. Escrever cartas que não serão respondidas ou enviar flores (metafóricas ou não) que não serão recebidas com um sorriso, nem daqueles meio assim, meio de soslaio, meio indeciso, que é capaz de iluminar meia via láctea com o brilho de meio milhão de sóis. Fazemos isso o tempo todo. Não com todas, nem todas são damas, as divas. Nem todas são musas como Calíope ou Clio. Algumas são só nossas companheiras e confidentes. Outras são a vida que desejamos carregar conosco, que confidenciamos e compartilhamos.

Além dos olhos, para dentro e ao largo, há as palavras, e são elas que fecham e coroam todo o ciclo. As palavras que nos permitem conhecer verdadeiramente, com muito mais propriedade e riqueza do que um olhar infinito. É o bom-dia atabalhoado, são as tentativas mútuas de romper o silêncio ao mesmo tempo em que se tenta mais do que tudo uma autorização social pra ficar lá, olhando, parado, em absoluto silêncio, se isso não fosse algo estranho demais pra se pedir. É a respiração convalescente quando se encontra ela, a dama, a diva, e o coração engrena uma síncope
atrás da outra, saltitando entre gestos e olhares procurando algum caminho inexplorado pra se embrenhar e vibrar junto daquele outro coração. E batendo junto, forte, ritmado, tudo mais para, e ali reina a felicidade. Simpatia, compartilhar a mesma (sim) doença (patia), partilhar a mesma necessidade cabal de completude.

A vida dos bons garotos é essa: (des)ilusão e (des)esperança. É buscar encontrar alguém com a mesma doença que a sua, não para te salvar, mas pra sofrer contigo as alegrias e desventuras. Experimentar o transcendente e o banal com a mesma toada, ser companhia rir e chorar. Garotos buscam em suas damas, divas, musas, mais que inspiração ou satisfação. Buscam sentido, e trazem consigo a convicção que por elas são capazes de milagres, dos frugais aos inefáveis, até mesmo como subverter as grossas linhas do destino.

Antes que amanheça novamente, então veremos o nascer do sol juntos.

Desejos e Fortuna

Whats your wish, milord?

What's your wish, milord?

“My life is a chip in your pile, ante up”. É o mote de Setzer Gabbianni, navegador da Blackjack, airship de Final Fantasy VI, um personagem ao qual me afeiçoei justamente por não ter simplesmente nada a ver comigo. Era um grande viajante e aventureiro, que vivia de enfrentar a sorte, ganhando ou perdendo, sempre arriscando. Ele era meu antônimo. Garoto pacato, nunca viajava sem os pais, averso a farras ou mesmo a vida social – perda de tempo. A minha vida é uma ficha na sua pilha, aposte. Jogue com tudo, jogue com força. Desde então tenho um caso tórrido com Fortuna, a deusa da sorte, do destino, das graças e desgraças. Eu já ganhei de aniversário uma cadeira. Já ganhei de presente de aniversário briga com namorada e desclassificação da Libertadores (ao mesmo tempo mas por razões desconexas). A maior chuva da década caiu na minha cidade no dia da minha formatura, tive de voltar pra casa à pé, de madrugada, descalço, com anel de formado e tudo. Perdi meu cartão de crédito fora do país, e o meu plano era justamente O ÚNICO que não cobria remessa de emergência. Esses são alguns dos fatos bizarros de azar, os de sorte são incríveis e eu prefiro nem listar. Basta dizer que conheci pessoas maravilhosas de forma lógica, porém mágica. Só isso já me basta. Mas às vezes tem mais que isso.

Gostaria de comentar uma noite em especial. Entre muitos eventos heróicos, menciono um jogo de baralho, ou, mais exatamente, de Magic. Em Orlando, jogava com meus primos Jean, Carlos e seu cunhado Demétrius – também um grande amigo. Jean, se não me engano, usava um deck vermelho de anjos, Demétrius um deck verde de criaturas grandes e Carlos o seu deck azul imbatível. Ok, se você não curte, pule um pouco as próximas descrições. Vai dando pulinhos e você vai notar quando a história estiver chegando ao final, que é o que interessa a você. Se você acha isso imbecil por favor vá embora daqui e não volte, você deve me achar imbecil também por tabela. Como eu dizia. O deck de Carlos é famoso, existe há mais de cinco anos, e é renomado por nunca ter sido derrotado (ao menos ninguém se lembra de uma ocasião, e talvez todos gostemos de manter essa mística, do deck perfeito. É um deck controle absoluto, que atravanca o jogo e decide quem vai jogar e como.

Eu, seu modesto servidor, jogava com um deck pré-frabricado tosquinho, com ligeiras alterações. Também deck azul, também deck de controle, mas MUITO mais barato que o deck do meu primo. O deck se fundamenta em uma criatura (Djinn of Wishes, 2UU), uma espécie de Djinn que (a um alto custo) sacrifica um desejo e joga uma carta no topo do deck sem pagar seu custo ou a retira do jogo. Nada excepcional, falando assim. Outra carta, que só eu gosto, é uma corujinha fraquinha cuja única função é, ao entrar em jogo, te deixar ver as três primeiras cartas do baralho, e arrumar na ordem que quiser. Junto com outras cartas de comprar carta e de ordenar o baralho, o espírito do deck é me deixar saber o que vem a seguir e então em planejar de acordo, jogando com as cartas na minha mão e as do deck, escondidas.

Jogamos num esquema de Hat, que funciona assim: antes do jogo escrevemos o nome de cada jogador num papel separado, dobramos e colocamos todos num chapéu, com um Yes e um No adicional. Quem pega um nome só pode atacar aquele nome, o Yes pode quebrar geral, e o No fica na sua, na moita. Quem pega o próprio nome equivale a um Yes. O jogo fica meio truncado e é péssimo pra decks de jogo rápido ou de controle, pois permite que os grandes decks aloprem seus exércitos antes do Armageddon que é o quebra-quebra geral. Ninguém sabe quem o outro tirou, então é extremamente temerário sair na chuva pra se molhar sem saber como está a mesa, quem pegou o quê, e, mais importante, quem quer seu pescoço.

Resultado: jogo extremamente tenso, durou mais de três horas, fácil. Em certa altura o jogo finalmente abriu, e tínhamos o seguinte status: Eu, ferrado, Os decks de Jean e Demo entulhados de inimigos, e Carlos controlando a galera. Eu tava tipo na merda, só que, meus amigos, um azul na merda é um azul na espreita. Quem joga sabe: azul se mata rápido, sem misericórdia. A seguir rolaram algumas rodadas extremamente sanguinárias, ao final das quais, Carlos sobreviveu só, com todas as criaturas do jogo em seu controle, apontando pra mim, e um HP IMENSO, que eu jamais seria capaz de vencer com meu gênio furreca.

Nada de relevante nas mãos, usei o que tinha de irrelevante mesmo assim, umas magias bobas, só pra fazer o drama. Pra se invocar a deusa da Fortuna você precisa se mostrar aberto, ansioso, pronto pra guerra. Eu sabia que, naquele momento, eu só tinha uma chance. No meu deck inteiro, tinha uma, somente uma carta, que poderia me salvar. A noite estava cansada, todos desanimados com a lavada que nosso primo, mais velho, óbvio, ia nos causar. Ia ser bonito, evidente, ganhar assim não é fácil, requer habilidade. Mas eu precisava não só de habilidade, mas de sorte, muita sorte.

De mãos vazias, me preparei pro show: “vocês já assistiram Maverick? aquele filme do Mel Gibson, em que ele ganha o jogo na última carta possível? Pois bem, my fellow mates, agora vamos a um momento Maverick, e veremos e a Fortuna será hoje minha consorte.” O gênio tinha 3 desejos sobrando. Gastei um, era uma carta irrelevante. Gastei outro, e também não me ajudou. Só faltava um, tudo ou nada, uma cara em 30 e poucas. Gastei o desejo restante e virei a carta direto no jogo.

O silêncio caiu na mesa, antes de eu começar a gargalhar muito, muito alto. Pra ser sincero, eu não lembro nem qual era a carta exata, só lembro do seu resultado. O texto era algo em torno de “todas as criaturas em jogo passam ao seu controle”. Assim eu tomei TODAS as criaturas dele e dei-lhe uma pancada violenta, one-hit-kill de dúzias de pontos. A única carta era a minha carta, e a última carta era a minha vitória. Maverick time, baby, I WIN.

Quando você quer chamar a deusa Fortuna tem de chamar com vontade, com vigor. Dizer que VAI ganhar, prometer amor eterno. Saber que vai ganhar ou perder, mas ter certeza que PODE ganhar, que o impossível PODE se fazer concreto. Apostar é arriscar. Para tudo que listei há uma probabilidade que é matematicamente previsível, e nada é absurdo. Eu sei que se me prestar a decompor cada evento da minha “sorte” ou “azar’ vou ver que busco sempre, à moda de Maquiavel, tentar maximizar as chances da sorte e reduzir as chances de azar. É óbvio. Mas isso não tira a mágica de apostar, de mesmo contra as chances, contra os números, tentar, nem que seja pra, ao fracassar, ter tentado. E sempre poder dizer, com peito estufado de coragem e empáfia: It’s Maverick time, baby, it’s time to WIN.

Setzer would be proud, I think.

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