Sob uma estrela pequenina

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Sob uma estrela pequenina

(Wislawa Szymborska, 02/07/1923 – 01/02/2012)

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpe as gentes nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes devo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não poder estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgue má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

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A morte necessária

Não é de se surpreender a progressiva laicização da espécie humana. Um dos maiores presentes da vida moderna foi nos trazer a inexorável certeza que a própria, tão atribulada e movimentada vida, um dia acaba.

Faça o teste: procure uma pessoa qualquer e lhe pergunte quais são suas expectativas para depois da morte. Com sorte – e confiando nas estatísticas brasileiras – você vai encontrar uma pessoa religiosa engasgando entre múltiplas respostas-prontas possíveis, todas elas tergiversando sobre o tema “Céu”. Mas insistindo um pouco mais tópico adentro, “mas lá no Céu, como vai ser?”, o riscado fica ainda mais torto.

O que poderia, afinal, um ser físico desempenhar em um ambiente metafísico? Como uma existência temporalmente limitada poderia ser desencaixotada numa dimensão definida por sua eternidade? Os textos bíblicos prometem uma existência devotada a glorificar Deus. Mas como isso seria exatamente? Um longínquo coral dos fiéis exaltando o Altíssimo, o Alfa e o Ômega, o Senhor dos Exércitos, etc etc etc até esgotar todos os títulos de potestades infra, ultra e extra terrestres. Certamente não me parece um bom programa nem para uma segunda à tarde, quem dirá para a eternidade inteira.

Mas presumamos que essa seja uma interpretação equivocada, essa de confundir e mesclar o físico e o metafísico. Vamos tentar de novo. Vamos considerar que, em nossa morte, nos afastaremos da existência material para assumir nosso lugar no imenso Estige, o rio dos mortos, com nossa essência fluindo permeando toda a existência para todo o sempre amém. Uma vez nesse corpo etéreo nós seremos despidos dos limites de nossas particularidades, compondo orquestradamente uma grande totalidade das almas celestiais. Bom, se perdermos tudo, então morremos naquele sentido tedioso dos céticos, e não é o que estamos buscando. Então algo deve persistir.

Algo precisa servir como condão, como arrimo para aquilo que somos. Se eu nunca tivesse tido mãos não sentiria falta delas se fossem tiradas de mim. São as memórias das experiências pretéritas que, junto com a experiência sensorial, apresentam-nos o mundo ao nosso redor. Na ausência de uma dimensão sensorial – já que descartamos a possibilidade de mescla entre o físico e o metafísico – tudo o que nos resta de possibilidade de fundamento para o agir são as memórias, que poderiam depender ou não dos processos químicos e elétricos que, ainda que considerados abstratos, tem origem e funcionamento claramente concretos, como regularmente nosso cérebro funciona.

Suporíamos então, ainda pelo desbravar do argumento, que seja possível que mantenhamos a consciência sem corpo ou mesmo atividade cerebral, somente com uma espécie de presença indistinta, preenchida com informações inverificáveis – já que nossa individualidade física teria sido extirpada. E o que faríamos então? Nós, ilimitados, descobriríamos afinal que é simplesmente impossível se afirmar algo diante do nada. Nós, por mais brilhantes, apaixonados, humildes, belos, perto da luz da eternidade não seríamos ninguém, seríamos como pedras que ainda que ricocheteiem no espaço sideral se fragmentando em poeira estelar, não farão barulho.

Se nossa vida fosse eterna todos nossos atos seriam contrapostos ao vazio. Aqueles breves milésimos de vida na história do universo passariam como um soluço vexatório, dando lugar a um imenso vazio. O vazio do indistinto, da inexistência de características, de possibilidades. A vida eterna seria uma condenação cruel a uma eternidade de reprises e covers após segundos de um relance de música original.

Mas a morte existe para nos oferecer uma medida de compensação. De saber que nosso primeiro beijo durará boa parte de nossa curta vida, impresso entre nossos lábios. Que nossos temores infantis nos seguirão da mesma forma, primeiro como monstros, depois como lições. Nós vivemos vidas curtas, com anos apinhados mas ainda assim tão velozes, para que possamos dar valor a um dia sequer. Aquele dia, aquele do qual muitas vezes você é refém. Aquelas escolhas que você fez. Aquilo que você escolheu ser na sua curta vida.

Nossa vida moderna nos ocupa cada vez mais. Momentos do dia dedicados ao ócio foram “colonizados” pela produtividade, consagrando nossas vidas a serem um eterno (enquanto dure) conjunto de possibilidades. Cada dia é mais valioso. Podemos viajar, conhecer, amar, destruir, conquistar em proporções épicas. E, se não o fazemos fica o som do relógio no estômago do crocodilo, nos perseguindo: sua vida poderia ser melhor aproveitada. Viva mais, nem que essa ansiedade lhe corroa como ácido.

Vivemos pouco para poder viver muito. Se vivêssemos para sempre os segundos seriam inertes e seríamos superiores que o tempo, desvencilhados da apreensão de momentos. Estamos condenados a viver uma vida de nossos significados, e morrer para que ecoem, em sua pequenez ou singular luminosidade. Está valendo a pena?

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Possibilidades do impossível

A fantasia às ordens de seu mestre

Bom, no último post escrevi um pouco sobre fantasia e ficção. Na verdade eu falei mesmo sobre fantasia. A sua relação com a relidade – e a chamada ficção – é algo que eu gostaria de tratar agora.

Eu já tinha escrito 90% desse post quando tropecei neste artigo, em que o romancista norte-americano Lev Grossman suscita uma importante questão sobre a pertinência da fantasia no mundo contemporâneo. Curiosamente era justamente isso que eu queria tratar nesse post, ao explorar mais os domínios da fantasia. Recomendo a leitura do artigo dele antes, durante, ou depois do meu post, tanto faz. Questão parecida foi suscitado em outro post, esse tratando de Stardust, se é ou não fantasia. Recomendo também, nos mesmos termos do anterior. Continue lendo

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Em casa de ferreiro fantástico

Mago e vidente

Eu passei alguns meses afastado do blog por questões acadêmicas – terminando a dissertação – e agora estou tentando voltar aos poucos, escrevendo algumas vezes por semana. Vamos ver no que dá. De qualquer forma, gostaria de escrever sobre alguns assuntos, de uma forma meio superficial mesmo, exumando idéias esquecidas. O cérebro é um músculo como outro qualquer, e a parte do meu que cuida da escrita anda tão atrofiada quanto meus braços de halterofilista de livros. Gosto do feedback que recebo especialmente no que tange a inferências e desdobramentos das coisas que comento aqui.

Mas então, hoje eu gostaria de escrever um pouco sobre fantasia e ficção. Continue lendo

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Uma teoria hipotética e irrelevante por um significado possível entre tantos possíveis

Sigam comigo um exercício mental.

De todas as páginas que deram origem ao filme Harry Potter e as Relíquias da Morte (partes um e dois), poucas me interessaram mais do que a história desses tais ítens que servem de título para a película, que de totalmente ignorados no universo potteriano surgiram direto na vitrine. Com sua permissão, vou apresentar de forma bastante resumida a história, e argumentar alguma coisa a seguir. Continue lendo

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Jair Bolsonaro: Um homem do seu tempo | Em drops

1 – Jair Bolsonaro é um reacionário de primeira linha, e isso não é surpresa pra ninguém, ao menos não deveria ser. A despeito do seu partido – Partido Progressista (!) – ser da base aliada do governo petista durante as eleições, Bolsonaro é reconhecido por ser o mais falastrão de todos os conservadores do país. Se há algo próximo a um ultra-conservador no Brasil, é ele.

2 – Que de um falastrão reacionário venham preconceitos, também não é surpresa nenhuma. Ele apareceu no CQC disparando comentários preconceituosos. Se ir ao CQC pode ter sido algo surpreendente, o teor das suas opiniões não é. As bancadas “moralistas” repetem as mesmas opiniões, mas com menos veemência e apreço pelas câmeras. Ou seja, é o mesmo conservadorismo, mas mais envergonhado.

3 – A despeito dos preconceitos toscos de Bolsonaro, ele não – me parece ser o caso – cometeu crime algum. Só externou sua visão caolha carregada de preconceitos. E, convenhamos, ser imbecil não é crime, nem aqui nem em lugar nenhum. Aliás, via de regra, quando opinião é punível, crime é ser inteligente e discordar. Ele discorda, mas só isso, na opinião, sem ação além da política, e sem inteligência.

4 – Na sua ação política ele tenta obstaculizar e emparedar todas as correntes ideológicas divergentes. Isso acontece por sua concepção de vida pública ser incapaz de receber a diversidade de opiniões e projetos de vida. Como a única verdade possível é a sua, todas as outras verdades dissonantes devem ser reprimidas. É tosco e absurdo, mas faz sentido.

5 – Pessoas toscas e absurdas existem aos montes. Nós, como presumivelmente não-toscos e não-absurdos (Camus que me perdoe) – e eu mesmo ando duvidando dessas duas últimas premissas – não podemos tratá-los com a mesma moeda, sob pena de legitimar seu argumento exclusionista. Para isso que existe o tal Estado de Direito, uma ficção bacaninha, mas que tem lá suas utilidades, como definir critérios de justiça política.

6 – O que importa é que trogloditas morais como Bolsonaro não podem e não devem ser considerados como parâmetro. Seu argumento de “tolerância” – que, infelizmente, é compartilhado por muitos – é daninho. Não basta tolerância, é preciso reconhecimento. É preciso observar, nos planos de vida divergente, direito a escolher seus próprios valores, coisa que Bolsonaro simplesmente nega.

7 – O Direito não pode ser feito por pessoas como Bolsonaro, que não aceitam a diversidade, sob pena de assim excluir elementos da sociedade. Bolsonaro está errado e merece ser relegado ao ostracismo político como lembrança desgastada de um tempo caquético daquele aborto de regime jurídico, o regime ditatorial que está prestes a fazer aniversário. Só vamos nos livrar dessa sombra quando aprendermos a superá-la.

8 – Essa superação só estará completa no reconhecimento. Quando criaturas incapazes de enxergar alteridade – de ver o outro como pessoa – não atravancarem mais o desenvolvimento do país. O tempo de Bolsonaro, nefasto com sua “permissividade” doentia, precisa passar. Direito não é, e não pode ser nem concessão nem caridade. É DIREITO. Dar o Direito a quem deve, por ser pessoa e cidadão. É esse o novo tempo desejado.

X – Parto da presunção de boa-fé de Bolsonaro, que ele não cometeu crimes de homofobia (?) ou racismo. Posso estar evidentemente errado nesse ponto, cabe a Justiça dizer, se provocada.

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Jair Bolsonaro: homem de seu tempo

 

crédito: jornal O Dia

Se algo não pode ser dito sobre Jair Messias Bolsonaro, é que ele não seja um homem de seu tempo. Militar da reserva, entrou na política determinado a defender os valores da caserna. Deus, Pátria e Família, unidos em prol do crescimento da nação. Quando Bolsonaro, em entrevista ao programa CQC – Em que pese a lástima de ter de ser um programa do nível do CQC o único a se propor a beliscar alguém influente -, chocou a sociedade com seus comentários “intolerantes”, e o fez com tranquilidade e segurança. Nada mais natural.

Uma democracia constitucional é, em tese, composta por opiniões divergentes que convergem sobre uma pequena fração da vida: a vida política. A noção de espaço público, legitimidade do Estado e do Império da Lei, digamos assim. Você pode ser cristão, mas precisa, por exemplo, seguir o Estatuto da Criança e do Adolescente, no que concerne à proibição de castigos violentos, mesmo que em trechos da Bíblia cristã seja aconselhado ao pai que use da força para “corrigir” os filhos. Ressalte-se que há cristianismos e cristianismos, estou somente explicitando um entre tantos, e não é meu objetivo aqui criticar nenhum. Esse pai hipotético seria forçado a limitar sua ação no escopo do convencionado politicamente. Da mesma forma como pais de outros credos, etnias e afins. Essa área de convergência – a qual John Rawls dá o nome de “consenso sobreposto” deve se referir somente ao básico das nossas vidas, bastando que seja resguardado o direito de cada um de desempenhar sua razão e consciência de forma livre, bem como fazer uso de suas faculdades morais para definir o que lhe é justo. Não se espera, mesmo numa democracia constitucional, uma espécie de mistura de todos os credos em uma amálgama ideológica. Não, isso não faria sentido, visto que muitas crenças são inclusive antagônicas, insustentáveis mutuamente. Se há, por exemplo, dois credos monoteístas diferentes, bom, há alguém aí que é ateu e não sabe, dependendo do ponto de vista. O que é desejado, na verdade, que haja uma espécie de bolha protetora na esfera pública que nos permita desenvolver quem nós somos, em nossas paixões e anseios, de forma desimpedida – contanto, claro, que não impeça simultaneamente alguém de desempenhar suas próprias paixões e anseios, caso este em que há formas politicamente asseguradas para solução do conflito, sabendo até onde pode-se ir ou não, mas sempre sob o abrigo do Estado de Direito.

A conduta – para muitos repugnante, eu incluso – do parlamentar Jair Bolsonaro, na verdade não vai longe dos ideais de tolerância da democracia constitucional. No caso, Bolsonaro escolheu seu “conjunto de valores”, extremamente conservadores, e tem ao seu lado a Constituição, nessa escolha. Se eu quiser tomar para mim valores, por exemplo, Amish, e resolver viver numa fazenda longe da civilização moderna, felizmente eu posso. Contanto que eu cumpra com minhas obrigações legais, não há problema algum. Ninguém pode me obrigar a amar cidades ou calças jeans. Não é isso que se pede ao falar de tolerância. No sentido corriqueiro, tolerância implica em impertubabilidade. Assim, juízos morais como o do deputado Bolsonaro podem, constitucionalmente, simplesmente tolerar minorias do seu desagrado. Crime haveria se ele atacasse alguém na rua, como trogloditas volta e meia fazem por aí, açoitando homossexuais, em plena av. Paulista. Esse sim é criminoso, enquanto Bolsonaro não. Ele tolera a divergência, meramente declarando sua opinião contrária. Defender algo além disso seria advogar o crime de consciência, que, esse sim, tem um histórico terrível na experiência política humana. Na inflamada entrevista o deputado alegou que “não voaria num avião pilotado por cotistas”, e, aparentemente, se confundiu quando perguntado se concordaria com o romance de um de seus filhos com uma mulher negra, entendendo, diferentemente, que a pergunta se tratava sobre se seus filhos poderiam namorar uma negra específica, a Preta Gil, possuidora de valores aos quais, surpresa, ele se opõe. De qualquer forma: Jair Bolsonaro desqualificou “cotistas” e uma pessoa “promíscua” – estou dando a ele a presunção de boa-fé que não foi racista. E nem acho, sinceramente, que ele o seja. É preconceito evidente, mas, por si, isso não é crime. É no máximo sinal de mediocridade. Como pode isso ser considerado, em algum ponto de vista – que não o dele – justo?

Talvez o problema esteja exatamente na definição de tolerância. Ao “tolerar”, nós definimos uma linha: tudo bem, não vou me insurgir contra você aí fora, você fica na sua vida, eu na minha. E é isso que Bolsonaro faz: pretende se afastar de tudo e todos que vão contra sua ideologia. Não quer que o seu Estado os beneficie de forma alguma. Isso é a definição mais cruel de tolerância: eu legalmente tolero sua existência. Mas é aí que pretendemos, como Estado Democrático de Direito, ficar? Ou melhor, nós somos legalmente autorizados a manter esse estado de diferença, em que alguns podem tolerar outros, até na medida em que estes podem ou não ter direitos?

A resposta é simples: não, não podemos. Quando mencionei acima sobre o “consenso sobreposto”, temos nesse pequeno espaço de convergência política todas as garantias para que possamos nos desenvolver como pessoas livres. O que eu preciso para me desenvolver não passa pela “autorização”, quem dirá “tolerância” de ninguém. Eu não preciso de tolerância, preciso é de reconhecimento. Ser reconhecido como cidadão, e, portanto, digno de formular meus próprios princípios morais, e escolher o que eu quero. Se eu quero ser hindu ou cristão, é problema meu. Se eu quero ser hétero, homo, bi, pansexual, também não é problema de ninguém. Logo, pelo poder das minhas escolhas, eu devo ser reconhecido como cidadão atuante. E nenhum direito civil, conferido a qualquer cidadão, me pode ser negado. União civil (eu pessoalmente acho que se casamento é religioso então tem de ser removido dos textos legais, passando a ser união civil pra todo mundo), adoção, herança, tudo mais. Isso não tem discussão, é direito fundamental, não precisa passar pela autorização ou sequer tolerância de ninguém. Você não respira porque eu tolero, respira por ser um ser vivo, objeto de direitos que já possuiria antes mesmo (ou a despeito) de ser cidadão. Nós precisamos ir além do meramente tolerar o diferente, precisamos passar a reconhecê-los como iguais em plenitude, pessoas com temores e sonhos como nós, que fizeram escolhas eu simplesmente nasceram diferentes. Todas as concepções éticas e morais de vida precisam se confrontar com o fato de que elas não são únicas, felicidade, mais que fórmula, é um acaso que acontece para mim e para você de jeitos diferentes. Mais importante, precisamos apoiar sim aqueles que, mesmo sob a promessa de que todos os humanos nascem iguais em liberdades e direitos, nascem, e logo que nascem se deparam com tanta diferença e tanta injustiça. Há um famoso spiritual norte-americano que diz: “enquanto um de nós ainda for escravo, nenhum de nós será livre”. Hoje todos nós somos escravos do tempo de Jair Bolsonaro. Que ele fique para trás e possamos um dia viver num Estado de homens e mulheres livres e iguais, em outro tempo.

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Chesterton, on Logic

“The supreme value of Carlyle to English literature was that he was the founder of modern irrationalism; a movement fully as important as modern rationalism. A great deal is said in these days about the value or valuelessness of logic. In the main, indeed, logic is not a productive tool so much as a weapon of defence. A man building up an intellectual system has to build like Nehemiah, with the sword in one hand and the trowel in the other. The imagination, the constructive quality, is the trowel, and argument is the sword. A wide experience of actual intellectual affairs will lead most people to the conclusion that logic is mainly valuable as a weapon wherewith to exterminate logicians. Continue lendo

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Metáforas

Meu último post foi uma grande análise sobre relacionamentos. Hoje gostaria de falar/escrever um pouco – mentira, vai ser muito, creio – sobre outro tema do meu agrado, conforme vocês verão a seguir.

P.S.: Acredite se quiser, eu cortei muita coisa. Prolixidade, aqui me tens de regresso.

P.S.2: Eu estou consciente do tamanho e de que pouca gente vai ter saco de ler. Sem problemas.

Imaginem o seguinte: a casa é azul. Eu acabo de fazer uma mágica: transformei palavras em significado. Fiz com que você imaginasse uma casa com um atributo específico. Como uma partitura instrui o violonista sobre uma melodia, inclusive sobre como dedilhá-la, com suavidade ou vigor. Pronto, acabo de fazer mais outra mágica inofensiva: Eu menti para você descaradamente. Te disse que a minha ação de te fazer imaginar uma casa azul era algo que ela certamente não poderia ser, uma partitura. Se a casa é uma casa – azul ou não – ela não pode, obrigatoriamente, ser uma partitura. A não ser que concordemos que exista uma casa-partitura, mas aí seria algo tão específico que não atenderia aos critérios nem de uma categoria nem de outra. O que eu fiz então foi dizer: uma coisa é outra coisa. E eu fui mais uma vez desonesto: disse que essa seria uma mágica inofensiva. Ao mesmo tempo em que atribuí a essa ação o valor de mágica (que significa, de forma concomitante e paralela, que é uma ação mágica ou que parece uma ação mágica), estabeleci uma caracterização estática: de uma forma ou de outra, não causarei mal algum, é um pequeno jogo inofensivo. Opa, eu acabo de te conduzir de novo ao engano. E mais uma vez, agora. Continue lendo

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Como trapacear nos relacionamentos

Vou te ensinar, nas próximas linhas, como trapacear nos relacionamentos. Parto do seguinte princípio: se relacionamentos fossem para dar certo, se fosse essa a previsão no seu projeto originário, metade da cultura humana jamais teria se formado, com inúmeras músicas sertanejas de dor-de-cotovelo e novelas cavalheirescas sobre paixões platônicas e amores inatingíveis tendo ficado no plano das ideias bregas. Não é à toa: amor, via de regra, dá errado. Essa percepção decorre por um fenômeno que eu, mui modesto, denominarei doravante como: FENÔMENO ONTOLÓGICO DA RESTRIÇÃO DA PROBABILIDADE, ou, em bom português, CHAVE-DE-CADEIA. Quando o herói – injustamente  aprisionado – vai escapar heroicamente – tudo que o herói faz é heroico, não reclame – ele SEMPRE só consegue fazê-lo na última chave. Não importa que o chaveiro tenha 5 chaves iguais, que o molho tenha 401 chaves de diferentes tamanhos e modelos. O homem (ou mulher. Ou bípede sensciente) desesperado sempre, SEMPRE conseguirá na última tentativa. Porquê? Porquê na tentativa que dá certo ele para de tentar, óbvio. Daí não precisa mais procurar, já deu certo. E o mar de tentativas pregressas sempre parecerão como perda de tempo, quando foram, ao seu jeito, sua forma de achar a chave certa. Então, evitando projeções freudianas, vamos às dicas. Como trapacear o destino – ou simplesmente impedir o mundo de atrapalhar seu curso. Continue lendo

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